A competição global por riqueza e investimentos de alta renda está mais acirrada do que nunca, com países ao redor do mundo buscando ativamente atrair empresários, investidores e famílias de alta renda.
Eles não oferecem apenas baixa tributação, mas um pacote completo que inclui segurança jurídica, estabilidade política, facilidade para investir e, crucialmente, uma alta qualidade de vida para seus novos residentes.
Nesse cenário competitivo, a América Latina tem seus representantes, mas o maior deles, o Brasil, surpreendentemente, não está entre os destinos mais cobiçados. Milionários globais buscam previsibilidade e um ambiente propício para o planejamento de longo prazo de seus patrimônios, conforme divulgado pelo Henley Private Wealth Migration Report 2026 da consultoria Henley & Partners.
Os desafios que afastam milionários do Brasil
Apesar de ser a maior economia da América Latina e responder pela maior parte da riqueza privada da região, o Brasil enfrenta desafios estruturais significativos que o excluem do grupo de países mais competitivos para atrair e reter riqueza internacional.
O relatório da Henley & Partners destaca que o país possui uma elevada carga regulatória, menor previsibilidade institucional e uma estrutura tributária complexa. Esses fatores, combinados, reduzem drasticamente sua atratividade para investidores internacionais.
Leonardo Vieira, especialista em Direito Empresarial e sócio do Vieira e Serra Advogados, explica que famílias de alta renda priorizam a previsibilidade, segurança jurídica, estabilidade institucional, qualidade de vida e proteção patrimonial acima de tudo.
Medidas recentes no Brasil, como o Imposto Mínimo, criado para compensar a isenção do IR até R$ 5 mil cobrando mais de quem ganha acima de determinado teto, a tributação de dividendos e as discussões adicionais sobre a tributação de grandes fortunas, criam um ambiente de incerteza para os milionários.
Vieira enfatiza que esse público não decide apenas onde pagará menos imposto, mas onde conseguirá planejar melhor os próximos vinte ou trinta anos, buscando sucessão organizada, liberdade de movimentação de capital e uma sólida estabilidade institucional.
Flávio Molinari, tributarista sócio do Collavini Borges Molinari Advogados, reforça que a falta de previsibilidade jurídica e de noções claras sobre a interpretação de regras tributárias futuras minam a confiança dos investidores no Brasil.
Ele acrescenta que, embora a reforma tributária possa prover ganhos no longo prazo, no curto e médio prazo ela tem seus custos de adaptação, gerando mais incertezas no ambiente de negócios.
Além dos aspectos tributários, Molinari ainda pontua que questões políticas, como o próprio cenário eleitoral com a polarização dominante, e econômicas, como o aumento do endividamento público e a baixa aderência da classe política para realizar reformas estruturais, também influenciam negativamente a percepção sobre o país.
Com uma pontuação de 64,2 pontos, o Brasil foi incluído entre os países que enfrentam desafios persistentes para competir pela atração de riqueza global. Vieira conclui que, no fim, o Brasil continua um mercado grande demais para ser ignorado, mas complexo demais para ser escolhido, sem ressalvas, como base patrimonial principal.
Uruguai: Estabilidade e incentivos que atraem fortunas
Em contraste com o Brasil, o Uruguai obteve a melhor pontuação na América Latina, com 71,8 pontos, no relatório da Henley & Partners. Essa posição é resultado de uma combinação estratégica entre estabilidade política, credibilidade institucional e políticas desenhadas especificamente para atrair residentes de alta renda.
Ao longo da última década, o país tem recebido um fluxo significativo de empresários e investidores, vindos principalmente da Argentina e do próprio Brasil, impulsionado pela busca por um ambiente mais previsível para investimentos e proteção patrimonial.
Entre os diferenciais uruguaios, destacam-se a qualidade das instituições, o respeito ao Estado de Direito, a estabilidade geopolítica e um regime tributário territorial, que oferece isenção por um período determinado sobre rendimentos obtidos no exterior por novos residentes fiscais.
A consultoria também ressalta que a pequena população uruguaia facilita a integração de milionários estrangeiros e de suas famílias, demonstrando como nações de menor porte podem ganhar competitividade internacional ao combinar estabilidade institucional com políticas específicas voltadas para essa finalidade.
Panamá: O centro financeiro da América Latina para investidores
O Panamá figura logo atrás do Uruguai, com 71,5 pontos, mantendo sua posição de principal centro financeiro da América Latina para investidores internacionais. Seu desempenho é atribuído a uma economia dolarizada, um regime tributário territorial que isenta rendimentos obtidos fora do país e a ausência de controles cambiais, fatores que ampliam a mobilidade internacional de capitais.
A facilidade para obter residência permanente é outro atrativo crucial para milionários. Essas simplificações, combinadas com décadas de desenvolvimento do setor bancário e jurídico panamenho, consolidaram o país como uma plataforma ideal para escritórios familiares (family offices), holdings patrimoniais e empresários com atuação internacional.
Segundo o relatório, essa infraestrutura financeira robusta, construída ao longo de décadas, representa uma vantagem competitiva difícil de ser replicada por países que buscam ingressar mais recentemente na disputa por investidores globais, consolidando o Panamá como um polo de atração.
Costa Rica: Qualidade de vida e preservação patrimonial
Fechando a lista dos destaques latino-americanos, a Costa Rica alcançou 70,2 pontos e atrai principalmente investidores que buscam combinar preservação patrimonial com bem-estar e uma elevada qualidade de vida. O país se destaca pela estabilidade democrática, baixos níveis de tensão geopolítica e indicadores sociais superiores aos da maior parte da América Latina.
A Henley & Partners também aponta a preservação ambiental, um sistema de saúde relativamente bem avaliado e a oferta de programas de residência para investidores e aposentados estrangeiros como fatores de atração.
Esses elementos têm sido cruciais para atrair principalmente famílias da América do Norte e da Europa, interessadas em diversificar sua residência fiscal e desfrutar de um ambiente tranquilo e seguro, onde a qualidade de vida é uma prioridade.