Brasil precisa “carregar as baterias” da transição energética com armazenamento e regulação moderna, defendem especialistas

O momento decisivo da transição energética no Brasil

O Brasil se encontra em um ponto crucial na sua jornada de transição energética. A expansão consistente das fontes renováveis, com a energia solar já ocupando a segunda posição em potência instalada na matriz elétrica, trouxe benefícios significativos como maior autonomia de suprimento, redução de custos, atração de investimentos e geração de empregos. No entanto, o sucesso dessas fontes intermitentes exige agora um novo paradigma para a infraestrutura e operação do sistema elétrico.

Armazenamento por baterias: a solução estratégica para os desafios atuais

Fenômenos como o ‘curtailment’ (corte de geração renovável), limitações nas redes elétricas e a necessidade crescente de flexibilidade operativa sinalizam que o foco deve migrar da mera expansão da geração para a modernização da infraestrutura. Nesse cenário, o armazenamento por baterias emerge como uma solução estratégica e sistêmica. Essas tecnologias permitem armazenar eletricidade gerada em momentos de oferta abundante para uso em horários de pico, aumentando a flexibilidade, reduzindo desperdícios, melhorando a estabilidade da rede e a eficiência da infraestrutura existente.

Benefícios econômicos e ambientais do armazenamento

O papel das baterias é ainda mais relevante diante dos cortes de geração, que causam perdas bilionárias de energia limpa e inviabilizam novos investimentos. Ao preservar a energia renovável, as baterias funcionam como uma ferramenta fundamental para evitar desperdícios e otimizar o sistema elétrico nacional. Estudos indicam que sistemas de armazenamento podem reduzir em até 48% os custos com reserva de capacidade e diminuir em até 66% as emissões de gases de efeito estufa em comparação com usinas termelétricas a combustíveis fósseis. Internacionalmente, a capacidade instalada de baterias saltou de 1 GW em 2013 para mais de 85 GW em 2023, com custos em queda, tornando a tecnologia cada vez mais competitiva.

A urgência de um marco regulatório moderno

Apesar do enorme potencial brasileiro, a aplicação de sistemas de armazenamento ainda é restrita. Para transformar esse potencial em realidade, são necessários avanços urgentes no ambiente regulatório. A ausência de regras específicas é um dos principais entraves. A regulamentação precisa reconhecer o caráter multifuncional das baterias, permitindo a remuneração dos diversos serviços prestados ao sistema. A conclusão da Consulta Pública Aneel nº 039/2023 e a publicação da portaria do Ministério de Minas e Energia para o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade de Armazenamento são passos fundamentais. Medidas como a operacionalização do Reidi para projetos de armazenamento, o uso de debêntures incentivadas e a redução da carga tributária também são cruciais para destravar investimentos, ampliar o mercado e gerar empregos. O desenvolvimento do mercado de armazenamento deve entrar definitivamente na agenda nacional, preparando o Brasil para as próximas décadas.