Especialistas apontam paralelos históricos entre o frenesi pré-Crise de 1929 e a atual escalada do mercado, impulsionada pela Inteligência Artificial, acendendo o alerta para os perigos de uma nova bolha.
Apesar de um cenário geopolítico instável, com conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, que impactaram o mercado global de energia, a Bolsa de Valores de Nova York tem registrado índices surpreendentemente altos. O Dow Jones superou 52 mil pontos e o S&P 500 manteve altas por nove dias consecutivos, enquanto o Nasdaq alcança recordes históricos, impulsionado pela explosão da Inteligência Artificial.
Essa aparente prosperidade, no entanto, levanta preocupações entre alguns economistas e analistas financeiros, que começam a traçar paralelos com o período que antecedeu a maior crise financeira da história.
Em seu novo livro, o jornalista Andrew Ross Sorkin explora as causas da quebra da bolsa de 1929 e as possíveis semelhanças com os dias atuais, conforme informações divulgadas pela BBC.
A Grande Quebra de 1929: Uma Crise Sem Precedentes
A década de 1920 foi um período de grande otimismo e dinamismo, marcado pelo surgimento de novas tecnologias como o automóvel e o rádio. Pela primeira vez, pessoas comuns passaram a investir na bolsa de valores, observando o mercado subir de forma constante.
Andrew Ross Sorkin, autor de 1929: Por dentro da maior crise da história de Wall Street, descreve que, em outubro de 1929, o mercado quebrou com uma força tremenda. Embora o ano tenha fechado com uma queda de ‘apenas 17%’, entre outubro e novembro daquele ano, a bolsa despencou quase 50%.
A magnitude da Crise de 1929 é assustadora, com uma queda de ‘aproximadamente 90% no valor total do mercado’ entre 1929 e 1933. Em 1932, a taxa de desemprego nos Estados Unidos atingiu alarmantes 25%, evidenciando o impacto devastador da quebra.
O Papel da Dívida e a Falta de Informação em Tempo Real
Um dos fatores cruciais para a intensidade da crise foi o alto nível de endividamento dos investidores. Sorkin explica que muitos tomavam empréstimos para comprar ações, em alguns casos, com uma ‘relação dívida/patrimônio líquido de 10 para 1’. Uma pequena queda no valor das ações podia significar a perda de cinco vezes mais dinheiro do que o investidor realmente possuía.
Além disso, a falta de dados em tempo real agravou a situação. Sorkin relata que as informações sobre os preços das ações chegavam com ‘quatro, cinco ou seis horas de atraso’ e, em locais mais distantes, até dois dias. Essa defasagem levava as pessoas a se aglomerarem em Wall Street, tentando descobrir o que havia acontecido com seu dinheiro, gerando pânico e desconfiança no sistema.
Os Sinais de Alerta: Dívida e Múltiplos no Mercado Atual
Para identificar vulnerabilidades em uma crise, Sorkin aponta dois indicadores principais: a dívida e os múltiplos. ‘Para mim, a alavancagem do sistema é o fósforo que acende o fogo’, afirma o jornalista. Ele ressalta a importância de monitorar o quanto de dívida existe no sistema, pois é isso que geralmente desencadeia as crises.
Outro sinal é o múltiplo preço/lucro (P/L), que indica quão cara uma ação está em relação aos lucros da empresa. Sorkin compara os gráficos históricos, que mostram picos semelhantes em 1929, na década de 1970 e no final dos anos 1990, durante a bolha da internet.
Em 1929, o gráfico atingiu um pico acima de 30. No boom da internet, ultrapassou 40. Atualmente, o índice P/L ‘ultrapassou a marca de 40 mais uma vez’, sendo a segunda vez na história que atinge um nível superior ao pico anterior à Crise de 1929. Este dado é um forte alerta para a economia global.
Lições Atuais: A Probabilidade de uma Nova Quebra
Ao comparar os picos históricos dos múltiplos P/L com os níveis atuais, Sorkin conclui que há uma grande questão existencial para todos nós. ‘É provável que, em algum momento, embora não saibamos quando, haverá outra quebra’, adverte o jornalista.
As lições da Grande Quebra de Wall Street de 1929 permanecem relevantes. A euforia do mercado, o alto endividamento e os múltiplos inflacionados são sinais que, quando ignorados, podem levar a consequências devastadoras, lembrando que a história econômica, embora não se repita exatamente, muitas vezes rima.