Por Ricardo Cantarelle
O desgaste na crise do Supremo deixou de ter nome próprio. Levantamento da CNN Brasil mostra que, entre 1º e 16 de setembro, 72% das manifestações críticas nas redes já miravam a própria Corte não mais um ministro isolado. Antes havia um vilão. Agora há uma instituição sob suspeita.
O gesto dos 13
Treze ex-ministros do STF, entre eles ex-presidentes da Corte, enviaram carta a Edson Fachin cobrando sessão pública para “imediata e rigorosa apuração”, sob devido processo legal.
O texto não cita nomes, mas chega depois de André Mendonça retirar o sigilo de um relatório da PF com 52 mensagens de Daniel Vorcaro para um celular atribuído a Alexandre de Moraes sem que as respostas do ministro apareçam no material.
A TVC apura que, nos bastidores, o silêncio do documento já é lido como recado.
O dossiê e a pergunta que ficou
Na Câmara, o deputado Nikolas Ferreira apresentou dossiê com as 218 páginas da perícia do celular de Vorcaro e cobrou publicamente que Moraes explicasse encontros, mensagens e o acesso do banqueiro a ele e que, enquanto isso não estivesse esclarecido, deixasse a cadeira.
Fechou perguntando se o preço não seria mais “quanto custou destruir a democracia” do que mantê-la.
A palavra que virou alerta…
“Desobediência civil” parou de ser figura de retórica. Em manifestação na Esplanada dos Ministérios (15/9), o desembargador aposentado e candidato ao Senado pelo DF, Sebastião Coelho (Novo-DF), chamou Moraes de “criminoso” e avisou: sem afastamento e apuração, “haverá uma desobediência civil neste país”.
No dia seguinte, o pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) usou o mesmo termo, chamando a sessão de terça de “estímulo à desobediência civil” e o STF de “lamaçal”. Dois nomes de espectros diferentes, mesma palavra, dois dias de intervalo sintoma, não coincidência.
A mensagem que fica
Aos ministros que hoje formam o que parte da opinião pública já chama de pelotão de proteção a um colega: a história da Corte não vai ser escrita pelas notas de solidariedade institucional, mas pelo que cada um fez ou deixou de fazer quando a instituição foi posta à prova. Silêncio, quando se tinha o dever de apurar, também é posição.
O que está em jogo não é a cadeira de um ministro. É o princípio de que ninguém está acima do escrutínio que se exige dos outros sob pena de a Corte que deveria proteger a Constituição virar, aos olhos de parte do país, um balcão de butiquim. Ignorar isso, com a palavra desobediência civil já circulando entre candidatos a cargos majoritários, é apostar numa paciência institucional que não é infinita.
Reavaliar agora, com sessão pública e resposta às perguntas que a sociedade já faz, é o único caminho que ainda preserva a Corte de uma ruptura que nenhum dos envolvidos vai conseguir controlar depois.
À sociedade cabe o de sempre: acompanhar, cobrar, e não normalizar a ideia de que a lei vale para uns e não para outros.
O TEMPO É O SENHOR DA VERDADE…