Maricá registra crimes enquanto discurso oficial aponta cenário positivo na cidade

Por: Ricardo Cantarelle | TVC | Março de 2026

Enquanto o prefeito Washington Quaquá insiste na narrativa de que Maricá é “o lugar mais seguro do Rio” e vai além, proclamando a cidade como referência nacional de segurança pública, a população que vive o dia a dia das ruas conta uma história completamente diferente.

Assaltos no Centro, roubos em Inoã, um carro crivado de balas em circunstâncias que apontam para tentativa de latrocínio e um homicídio na porta de casa.

Esse é o retrato de março de 2026 em Maricá. Não é opinião. São fatos registrados, documentados e noticiados.

Adolescentes foram apreendidos praticando assaltos com faca e bicicleta nas regiões do Centro e Mumbuca. Em Inoã área historicamente sensível , um homem apontado como autor de múltiplos roubos só foi contido pela própria população, sem a presença imediata do poder público.

Um veículo foi alvejado por vários disparos em circunstâncias investigadas como tentativa de roubo seguido de morte. E um morador foi assassinado a tiros na porta da própria casa, sem motivação aparente divulgada pelas autoridades.

Diante desse cenário, o discurso oficial soa como ficção. Nas redes sociais do prefeito, o roteiro se repete com precisão ensaiada: “7 mil câmeras inteligentes”, “bandido não se cria”, “a violência caiu, a segurança cresceu”.

Uma narrativa construída sobre pilares de tecnologia, sensação de controle e marketing institucional sem apresentação de dados concretos que sustentem uma única afirmação.

A Grande Mídia e a Pergunta que Fica no Ar

O jornalismo, em sua essência, tem uma regra básica: ouvir os dois lados. Sempre. Sem exceção.

No entanto, o que se observa na cobertura de Maricá pela grande imprensa é um padrão que chama atenção: programas de grande audiência recebem secretários municipais em horário nobre, espaços generosos são abertos para enaltecer realizações da gestão, e a cidade é apresentada ao público como um modelo de desenvolvimento e segurança.

Até aqui, nenhum problema. Gestões públicas têm o direito de divulgar seu trabalho, e a imprensa tem o direito de cobri-lo.

A questão é outra.

Por que a grande mídia não ouve os apelos da população de Maricá?

Por que nenhuma das graves denúncias já registradas demissões em massa, cortes em benefícios sociais, licitações barradas pelo Tribunal de Contas foi apurada ou divulgada com o mesmo destaque dado às notas oficiais da prefeitura?

Por que o único lado que encontra espaço nos grandes veículos é o da administração pública?

O jornalismo que se volta exclusivamente para os interesses das empresas de comunicação e que abandona sua missão fundamental de ouvir a sociedade deixa de ser jornalismo. Vira divulgação. E a população de Maricá sabe, com cada vez mais clareza, a diferença entre os dois.

Resta aos veículos alternativos com menos estrutura, menos recurso e mais coragem a difícil missão de defender a verdade e o verdadeiro jornalismo. Aquele que incomoda porque pergunta. Que resiste porque não se cala. E que permanece porque a população precisa de alguém que fale por ela.

O Tribunal de Contas Fala Mais Alto que o Marketing

Enquanto a narrativa oficial constrói a imagem de uma gestão eficiente e transparente, o Tribunal de Contas do Estado tem contado uma história diferente. O órgão já interveio para impedir que diversas licitações irregulares se concretizassem, barrando processos que poderiam resultar no desvio de milhões de reais dos cofres públicos.

Intervenções do Tribunal de Contas não são episódios isolados. Quando se tornam um padrão recorrente numa mesma gestão, deixam uma pergunta sem resposta fácil: até quando?

Onde Estavam Renato Machado e Rosângela Zeidan?

Com as eleições se aproximando, dois nomes voltaram a circular pelas comunidades de Maricá com entusiasmo renovado: os deputados Renato Machado e Rosângela Zeidan. Fotografias em eventos populares, aparições em festas de bairro, registros dos mais variados se tiver um campeonato de
purrinha é presença certa. A mensagem é cuidadosamente construída: “estamos aqui, somos do povo.”

Mas o eleitor de Maricá tem memória.

Onde estavam Renato Machado e Rosângela Zeidan quando milhares de trabalhadores foram demitidos, atingindo diretamente centenas de famílias?

Onde estavam quando benefícios sociais que sustentavam as comunidades mais vulneráveis foram retirados da população?

Em nenhum momento levantaram a voz em defesa de quem os elegeu. Em nenhum momento colocaram seus mandatos a serviço das famílias atingidas.

O silêncio, nesses casos, é uma escolha política. E escolhas têm consequências.

Agora, com o calendário eleitoral batendo à porta, os mesmos que estiveram ausentes nos momentos que realmente importaram reaparecem com sorrisos largos e agendas cheias nas comunidades.

Parece que apostam numa amnésia coletiva do eleitor de Maricá que a população vai esquecer os demitidos, os cortes, o abandono.

Subestimar a inteligência do eleitor é o erro mais caro que um político pode cometer.

Uma Cidade Administrada de Fora para Dentro

A percepção que cresce entre os moradores não é apenas de descaso é de exclusão. Cargos estratégicos da prefeitura ocupados por pessoas de outros municípios e outros estados, enquanto filhos da cidade ficam de fora. As comunidades que construíram Maricá, e que a financiam com os royalties do petróleo, assistem de fora às decisões que deveriam ser delas.

Funcionários públicos municipais relatam, em silêncio, um clima de pressão institucional. Seguir a cartilha virou condição de permanência. O medo do desemprego se tornou, na prática, uma ferramenta de controle. O que era serviço público foi transformado em lealdade compulsória.

E no centro de tudo, a percepção crescente da população: a de que a prefeitura deixou de ser a casa do povo e passou a ser gerida como um negócio particular com seus beneficiários, seus excluídos e suas regras próprias.

O Papel do Jornalismo Independente

A TVC e os poucos veículos que ainda praticam jornalismo de verdade em Maricá não trabalham por oposição trabalham por obrigação. A obrigação de mostrar o que acontece, comparar com o que é dito, e devolver ao cidadão o direito de formar seu próprio julgamento.

Não é preciso chamar ninguém de mentiroso. Basta colocar os fatos lado a lado.

De um lado, o prefeito que proclama Maricá como a cidade mais segura do país.
Do outro, os boletins de ocorrência, as famílias de desempregados, os benefícios cortados, o Tribunal de Contas e as ruas que contam outra história.

Quaquá comete o mesmo erro que outros administradores cometeram antes dele: subestimar a força das comunidades. Aquelas mesmas que o levaram à maior conquista de sua vida política. E que hoje, traídas, carregam uma certeza silenciosa e crescente.

O tempo é o senhor da verdade.