Por Ricardo Cantarelle/TVC
Fabiano Horta escolheu o silêncio sobre o nome do adversário e a lotação do ginásio para dizer tudo o que precisava dizer. No primeiro grande ato político do ex-prefeito desde que deixou o comando de Maricá, cidade que administrou por oito anos, o discurso não mencionou uma única vez o atual prefeito Washington Quaquá e, ainda assim, funcionou como resposta direta a meses de críticas públicas feitas por ele.
Sem cargo, sem estrutura de prefeitura e sem a máquina que normalmente enche plateias em pré-campanha, Fabiano reuniu um público que, segundo relatos de participantes colhidos pela TVC, tomou o ginásio por completo um indicador político que seus aliados tratam como prova de que o legado de sua gestão segue vivo entre os maricaenses, mesmo debaixo de fogo.
O contexto da fala não pode ser lido fora da guerra que Quaquá vem travando publicamente contra o antecessor desde que assumiu o terceiro mandato, em janeiro de 2025.
Em entrevistas recentes, o atual prefeito afirmou ter recebido a prefeitura com um rombo de R$ 480 milhões nas contas e comparou a gestão anterior a um espetáculo de auditório popular, pela forma como diz que o dinheiro público teria sido distribuído sem foco em qualificação ou produção.
Quaquá também apontou a existência do que chamou de contratos absurdos, firmados com empresários e políticos durante o governo de Fabiano, e prometeu cortes de gastos para gerar um superávit bilionário. É esse pano de fundo declarações que sugerem má gestão e benefício a interesses fora do interesse imediato da população que dá peso a cada palavra escolhida por Fabiano no palco.
Porque, em vez de rebater no mesmo tom, o ex-prefeito optou por reconstruir, com precisão cirúrgica, o inventário do que classifica como seu legado. “Está defendendo tudo aquilo que foi construído ao longo dos últimos anos e que mudou a vida do povo de Maricá”, discursou, antes de anunciar formalmente sua pré-candidatura a deputado federal.
O ponto alto da fala foi reservado ao Fundo Soberano de Maricá, criação símbolo de sua gestão: “Eu sei o que foi entregar à prefeitura de Maricá, depois de oito anos, e ter criado o maior fundo soberano de uma cidade no Brasil.” Fabiano foi além e anunciou a intenção de apresentar, já como deputado federal, um projeto de lei para regulamentar os fundos soberanos municipais em todo o país uma tentativa, segundo leitura de aliados presentes ao evento, de blindar nacionalmente o instrumento que ajudou a conceber.
É nesse ponto que o discurso ganha camada mais afiada.
Ao defender a “regulamentação” e a preservação da finalidade original do fundo poupança de longo prazo para proteger políticas públicas das oscilações da economia , Fabiano constrói, sem nomear ninguém, um contraste com os rumos que o Fundo Soberano vem tomando sob a gestão atual. Quaquá já declarou publicamente que pretende usar os recursos do fundo como instrumento de fomento direto à economia, e não apenas como reserva parada: anunciou a criação da companhia aérea MaricáAir, a compra da SAF do Vasco da Gama, um novo estádio projetado nos moldes de Oscar Niemeyer e, mais recentemente, o aporte de recursos via Maricá Global Invest para viabilizar, por meio de debêntures, o financiamento do polêmico projeto Maraey o mesmo empreendimento que a TVC vem noticiando em meio a disputas ambientais e questionamentos do Ministério Público.
Para o entorno de Fabiano, a ampliação do escopo de aplicação do fundo de reserva estratégica a motor de projetos imobiliários e apostas empresariais de risco representa um desvio da finalidade original, criada em 2017 e reformulada em 2019. Essa leitura, é importante frisar, é interpretação política do campo de Fabiano Horta, e não um fato jurídico ou técnico estabelecido: trata-se de um julgamento de mérito sobre prioridades de gestão, não de irregularidade comprovada por órgão de controle.
A lotação do ginásio, segundo avaliação de apoiadores presentes, também funcionou como termômetro para outra disputa em curso, e o desgaste apontado por ela ganhou uma confirmação inesperada.
Em vídeo obtido pela TVC, o próprio deputado estadual Renato Machado, nome hoje associado ao campo de Washington Quaquá, admite publicamente o tamanho da impopularidade da atual gestão: “Por isso que o governo é o governo do prefeito, tem 80% de rejeição, meu”, afirma Machado, em registro de um evento de rua em Maricá.
A frase, dita por um aliado do próprio prefeito, tem peso justamente por não vir de um opositor: é o reconhecimento, dentro do próprio campo governista, de que a gestão Quaquá acumula rejeição em proporção que a prefeitura não costuma admitir publicamente. O recado simbólico do público que lotou o ginásio de Fabiano, somado à fala de Machado, reforça a leitura de que o desgaste do atual prefeito em sua própria base é maior do que a administração municipal reconhece.
Mas há um silêncio que a lotação do ginásio não resolve, e é sobre ele que a TVC insiste, porque o compromisso desta redação é com a apuração dos fatos, não com a simpatia de quem os protagoniza. Não basta a Fabiano Horta caminhar pelas ruas de Maricá distribuindo abraços e discursando sobre legado enquanto seguem no ar as acusações graves feitas por Washington Quaquá sobre o estado em que encontrou os programas sociais do município.
Em declarações públicas, o atual prefeito afirmou ter identificado descontrole na distribuição da moeda social Mumbuca segundo ele, pagamentos mantidos para beneficiários já falecidos, cadastros vinculados a terrenos baldios e uma quantidade de casos que, em suas próprias palavras, seria “uma enormidade”.
Em publicações nas redes sociais, o prefeito foi além e mirou diretamente o Cota 10, programa vinculado ao PPT criado ainda na gestão Fabiano, afirmando que cortaria “todo mundo que vem de fora, que não é de Maricá e que se beneficia dos programas sociais de Maricá sem sequer morar aqui” e citou moradores de São Gonçalo como exemplo de beneficiários que, segundo ele, recebiam recursos do município sem qualquer vínculo com Maricá. Se confirmado, o quadro descrito sugere que programas concebidos para atender diretamente a população local teriam sido usados, na prática, como moeda de troca dentro de articulações políticas que extrapolavam os limites do município uma hipótese grave, que até o momento não foi respondida publicamente por Fabiano Horta nem por sua equipe.
A ausência de resposta não é prova de culpa, mas também deixa de ser mero detalhe quando o silêncio se estende por mais de um ano diante de acusações dessa magnitude, feitas pelo próprio sucessor na Prefeitura.
E se a cobrança recai sobre Fabiano, ela não poupa Quaquá. Se o quadro que o prefeito descreve é real déficit de R$ 480 milhões, contratos que classificou como absurdos, programas sociais distribuídos sem critério a ponto de alcançar mortos, endereços fictícios e beneficiários de fora do município , cabe perguntar por que a resposta institucional até hoje ficou restrita a discursos e publicações nas redes sociais, e não a processos.
A Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/1992) existe exatamente para apurar e punir agentes públicos que tenham violado os deveres de honestidade, legalidade e boa gestão do dinheiro público. Se Quaquá está convencido de que seu antecessor deixou esse rastro, o caminho institucional é o Ministério Público e a Justiça não apenas o palanque e o feed do Instagram. A ausência de uma ação formal, até onde a TVC apurou, abre espaço para uma pergunta que o eleitor de Maricá tem todo o direito de fazer: por que acusar publicamente, com tanta veemência, sem municiar a Justiça com os mesmos elementos? Fica difícil para quem vota entender um prefeito que acusa e, ao mesmo tempo, se omite do instrumento legal que a própria lei lhe oferece.
O evento sela, de forma definitiva, o rompimento entre dois nomes que caminharam juntos por quase uma década na construção do projeto petista em Maricá Quaquá como padrinho político, Fabiano como sucessor escolhido a dedo. Hoje, ambos disputam o mesmo espaço eleitoral, com o agravante de que o filho do atual prefeito, Diego Zeidan, também mira uma cadeira na Câmara dos Deputados, o que amplia a tensão dentro do próprio partido.
Enquanto Quaquá dedica parte crescente de sua agenda a projetos fora dos limites tradicionais da administração municipal fóruns de investimento, companhia aérea, futebol profissional , o discurso de Fabiano tentou reposicionar o debate local em torno de uma pergunta simples: quem, afinal, protege o dinheiro do povo de Maricá e para quem ele deveria servir. É análise política, não veredito mas é a disputa que Fabiano Horta deixou clara que está disposto a travar até outubro, e que Washington Quaquá, aos poucos, vê crescer dentro de sua própria base como o adversário que menos esperava enfrentar.
A reportagem tentou contato com as partes citadas, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.