Descubra como a energia barata, agronegócio forte e impostos competitivos impulsionam o notável crescimento econômico do Paraguai, gerando empregos e atraindo bilhões em investimentos, com impactos significativos para a região.
Enquanto a atenção global se volta para a Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino de 2026, onde o Paraguai não figura entre os favoritos, o país vizinho tem marcado gols de outra natureza, exibindo um desempenho econômico surpreendente na América do Sul.
Nos últimos três anos, a economia paraguaia registrou um crescimento médio anual de 5,5%, superando significativamente a média de seus vizinhos e da região como um todo. Este dinamismo tem gerado resultados palpáveis, com cerca de 300 mil paraguaios saindo da pobreza nos últimos dois anos e o menor índice de desemprego em 13 anos, alcançado em 2025.
Economistas e especialistas concordam que o país vive um verdadeiro boom econômico, impulsionado por uma combinação estratégica de fatores. A seguir, exploramos os cinco pilares que sustentam este momento promissor, conforme informações divulgadas pela BBC News Mundo.
1. Energia Barata e Sustentável
O Paraguai se destaca como o maior exportador mundial de eletricidade limpa per capita, um feito notável graças à represa de Itaipu, administrada em conjunto com o Brasil. Este vasto potencial energético se tornou um trunfo geopolítico, atraindo investimentos em setores de alta tecnologia, como centros de processamento de dados e fabricação.
Mariano Machado, principal analista para as Américas da Verisk Maplecroft, destaca que a energia hidrelétrica é o eixo central da proposta paraguaia para inteligência artificial, centros de dados, fertilizantes e crescimento industrial. Para ele, “o impulso aos centros de dados poderia transformar o modelo de desenvolvimento do Paraguai”.
Além da eletricidade, o país avança na produção de biocombustíveis, seguindo os passos do Brasil. Essa diversificação da matriz energética e a geração de novas exportações reforçam a posição do Paraguai como um ator energético relevante na região.
2. Agronegócio Forte e Exportações Diversificadas
A agropecuária representa quase dois terços da atividade econômica paraguaia, abrangendo desde cultivos como a soja, um dos principais produtos, até a criação de gado e a exportação de carnes, especialmente suína. A indústria florestal também ganha espaço, diversificando ainda mais o setor.
Marcos Lascurain Rodrigo, economista da FocusEconomics, aponta que, após uma seca intensa em 2022 que contraiu a economia, o país observou uma recuperação expressiva a partir de 2023, com boas colheitas e um aumento nas exportações agrícolas. O governo tem trabalhado na diversificação dos destinos de exportação, buscando novos mercados asiáticos além de Taiwan, um parceiro tradicional para carne bovina e suína.
3. Atração Recorde de Investimento Estrangeiro Direto
A estabilidade política e econômica do Paraguai, em contraste com vizinhos como Argentina e Bolívia, resultou em um aumento significativo do Investimento Estrangeiro Direto (IED). O governo do presidente Santiago Peña, desde 2023, implementou reformas para melhorar o ambiente de negócios, com uma agenda econômica ortodoxa e favorável ao investimento privado.
Os dados mais recentes do Banco Central do Paraguai (BCP) indicam que o IED atingiu US$ 931 milhões (cerca de R$ 4,8 bilhões) em 2024, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Empresas internacionais são atraídas pela mão de obra mais barata, estabilidade macroeconômica e acesso facilitado aos mercados regionais, dada a localização central do país.
Um exemplo notável é a fábrica de celulose da multinacional Paracel, com investimentos superiores a US$ 4 bilhões (cerca de R$ 20,8 bilhões). Este projeto, que inclui um porto fluvial privado e a expansão da rede viária regional, gerará mais de 40 mil empregos indiretos, demonstrando o potencial de transformação do país.
4. Política de Baixos Impostos e Disciplina Fiscal
A carga tributária do Paraguai é uma das mais baixas da América Latina, o que tem sido um grande atrativo para empresas. O país mantém alíquotas fixas de 10% para imposto de renda, IVA e impostos corporativos. Em comparação, a alíquota empresarial efetiva no Brasil é de 34%, tornando o Paraguai um destino competitivo.
Mariano Machado destaca que a disciplina macroeconômica paraguaia permite a redução de impostos, a oferta de isenções fiscais e melhores condições para investidores. A pressão fiscal do Paraguai, definida como a relação entre impostos e PIB, é de 14%, a segunda menor da América Latina, segundo a OCDE, abaixo da média regional (22%) e dos países desenvolvidos (34%).
Embora essa política atraia investimentos, ela também suscita debates sobre a capacidade do Estado de financiar serviços públicos essenciais como educação, saúde e infraestrutura. A questão da desigualdade social, com um coeficiente de Gini de cerca de 0,45, permanece um desafio, indicando que o crescimento econômico ainda não se traduz em melhorias proporcionais para todas as camadas da sociedade.
5. Infraestrutura Estratégica no Coração do Continente
O Paraguai está se consolidando como um hub logístico e energético fundamental na América do Sul, impulsionado por projetos como a hidrovia Paraguai-Paraná e o Corredor Bioceânico. Este corredor, uma autoestrada de 3,5 mil quilômetros, ligará o porto de Santos (SP) aos portos chilenos de Iquique e Antofagasta, atravessando o Chaco paraguaio.
Quando concluído, o Corredor Bioceânico reduzirá o tempo de trânsito das exportações para a Ásia em até 14 dias e os custos logísticos em aproximadamente 25%. A hidrovia Paraguai-Paraná, vital para a exportação de soja, milho e carne, também recebeu melhorias significativas, com investimentos de US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,6 bilhões) em dragagem e sinalização, garantindo sua navegabilidade contínua.
Empresas como Cofco, ADM e Viterra ampliaram suas instalações portuárias ao longo do rio, e a frota fluvial paraguaia, a terceira maior do mundo, demonstra a destreza marítima do país, mesmo sem saída para o mar. Estes avanços infraestruturais são cruciais para a competitividade e o crescimento econômico do Paraguai.
Apesar do momento favorável, a manutenção de uma taxa de crescimento de 5% ao ano pode ser desafiadora. Economistas preveem que o crescimento continuará, mas de forma mais estável. Para dar o salto rumo a uma economia de maior receita, o Paraguai precisa resolver restrições estruturais, como aumentar a produtividade, gerar melhores empregos e fortalecer suas instituições, garantindo que os benefícios do desenvolvimento cheguem a toda a população.