Partido dos Trabalhadores mira eleitorado conservador com nova abordagem, buscando fôlego para Fernando Haddad no segundo turno contra Tarcísio de Freitas em São Paulo.
O Partido dos Trabalhadores, PT, está implementando uma nova e audaciosa estratégia em São Paulo, com o objetivo de desafiar a vantagem do atual governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos. A tática central envolve um investimento significativo no interior do estado, historicamente um reduto mais conservador e favorável à direita.
Essa mudança de rota visa garantir que Fernando Haddad, pré-candidato do PT ao governo paulista, alcance o segundo turno, assegurando assim um palanque robusto no maior colégio eleitoral do país para a disputa nacional.
A ofensiva inclui a realização de eventos importantes e a formação de uma chapa ampla, buscando atrair eleitores para além da base tradicional do partido, conforme apurado pela reportagem.
A Mudança de Rota e a Convenção Histórica
Em um movimento inédito na história do Partido dos Trabalhadores, a convenção estadual que oficializará a candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo foi marcada para 25 de julho em Campinas, interior paulista. Essa decisão de levar o evento para fora da capital reforça a nova estratégia do PT em São Paulo.
Fernando Haddad e a pré-candidata ao Senado, Simone Tebet, do PSB, têm intensificado suas viagens pelo interior do estado. Eles contam com o apoio de cooperativas, universidades e sindicatos para ampliar o alcance da campanha.
Em junho, por exemplo, a dupla visitou uma cooperativa em Santa Bárbara d’Oeste e ministrou uma aula magna na Universidade Estadual Paulista, Unesp, em Rio Claro. Já neste mês, participaram de um evento no Sindicato dos Trabalhadores Municipais de Piracicaba e Região, demonstrando o foco no interior.
A chapa anunciada pelo PT em 25 de junho é composta por Haddad, tendo Márcio França, do PSB, como pré-candidato a vice-governador. Para as duas vagas ao Senado, Simone Tebet e Marina Silva, da Rede, disputam em uma coligação que reúne PT, PSB, Rede, PSOL, PDT e PCdoB, reforçando a amplitude da aliança.
Desafio nas Pesquisas: A Vantagem de Tarcísio
As pesquisas eleitorais mais recentes apontam para um cenário desafiador para o PT no interior paulista, que justifica a intensificação da estratégia do PT em São Paulo. Uma sondagem do Instituto Datafolha, divulgada em 5 de junho, mostra Tarcísio de Freitas com 46% das intenções de voto no cenário estimulado, contra 30% de Haddad.
A distância entre os dois pré-candidatos aumenta para 52% a 34% quando considerados apenas os votos válidos, excluindo brancos e nulos. Em uma simulação de segundo turno, Tarcísio venceria por 53% a 37%, de acordo com o Datafolha.
Outro levantamento, do instituto Paraná Pesquisas, divulgado em 19 de junho, reforça essa tendência. Tarcísio aparece com 45,6% das intenções de voto no primeiro turno, contra 34,1% de Haddad, uma vantagem de 11,5 pontos percentuais.
As pesquisas foram realizadas com metodologias rigorosas: o Datafolha entrevistou 1.608 pessoas em 71 municípios entre 1º e 3 de junho de 2026, com margem de erro de 2 pontos percentuais. O Paraná Pesquisas ouviu 1.600 entrevistados entre 16 e 18 de junho de 2026, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais.
Historicamente, a dificuldade da esquerda em vencer em cidades mais conservadoras do interior de São Paulo não é nova. Em 2022, Tarcísio foi eleito com 55,27% dos votos válidos, enquanto Haddad obteve 44,73%, com o atual governador vencendo na maioria dos municípios do interior, enquanto o petista levou a capital e parte da região metropolitana.
O Eleitor do Interior e a Aposta no Centro
O cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, explica que o padrão de votação no interior não é exclusividade de Tarcísio. Durante os 28 anos de hegemonia do PSDB no estado, o partido também se beneficiou dessa mesma vantagem.
“O Tarcísio está se valendo da mesma carta na manga que o PSDB: um interior do estado mais alinhado aos valores conservadores e, portanto, que tradicionalmente rejeita a esquerda”, afirma Consentino.
Ele complementa que o eleitorado do interior é “mais ligado ao agronegócio, a certos setores industriais e patronais, e que rejeita novas agendas da esquerda ligadas a questões identitárias e mudanças de costumes, além da pauta ligada aos sindicatos e à defesa dos trabalhadores”.
A escolha de Simone Tebet para a disputa ao Senado por São Paulo é vista como parte da tentativa do PT de ampliar o alcance para além do eleitorado tradicional de esquerda, repetindo o movimento da última disputa presidencial. O objetivo é atrair também os eleitores indecisos, que representam uma parcela significativa.
A última sondagem do Paraná Pesquisas, no cenário espontâneo, revelou que 58,3% dos entrevistados não souberam dizer em quem votariam. O Datafolha confirmou essa tendência, com 55% de indecisos, mostrando a relevância de conquistar esse público.
“A estratégia do PT é tentar isolar o Tarcísio à direita para buscar esse eleitor mais centrista. Em 2022, o partido acenou para o centro durante o período eleitoral e o apoio de Simone Tebet foi importante nesse sentido”, lembrou Leandro Consentino.
Em 2026, a estratégia do PT em São Paulo se repete com Tebet, que possui diversos atributos para atrair o eleitor de centro: ela não está posicionada na esquerda tradicional e tem fortes ligações com o agronegócio. Tebet, que foi filiada ao MDB por quase 30 anos, ingressou no PSB em março a convite do presidente Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, para concorrer ao Senado por São Paulo.
Críticas à Gestão Atual e Propostas do PT
A assessoria de Fernando Haddad explicou que o foco da chapa no interior de São Paulo se deve a “questões do interior do estado que merecem atenção”. Entre as críticas à gestão atual, a campanha petista destacou “a ausência de um plano de desenvolvimento para as regiões, o abandono dos prefeitos, os problemas da Sabesp, do ‘Universaliza SP’ e da segurança pública, com a chegada do Comando Vermelho, além do aumento do crime organizado e do feminicídio”.
Em contrapartida, a assessoria de Haddad ressaltou que “o governo Lula bateu recorde com o Plano Safra, além de programas importantes para o agronegócio”, buscando apresentar alternativas e soluções para os problemas enfrentados pelas cidades do interior. A assessoria de Simone Tebet foi procurada, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.