Racismo Ambiental no Rio Una: Comunidade Quilombola de Cabo Frio Sofre com Despejo de Esgoto e Poluição Industrial

Comunidade Quilombola em Alerta: Pesca Comprometida e Saúde Ameaçada

A comunidade quilombola do Rio Una, em Cabo Frio (RJ), enfrenta um cenário de grave crise ambiental que afeta diretamente seu modo de vida e sustento. Segundo Rejane Maria de Oliveira, moradora e representante da comunidade, o despejo irregular de esgoto e a poluição industrial têm levado a um quadro de “racismo ambiental” em todas as áreas de pesca. O mau cheiro, a péssima qualidade da água e a mortandade de peixes impossibilitam a pesca, atividade essencial para a subsistência das famílias quilombolas.

“Vivemos da pesca, não estamos no mercado de trabalho. Hoje, quem pesca para subsistência está sofrendo”, lamenta Rejane, que também aponta a falta de assistência do poder público. Profissionais que dependem da pesca de caranguejo, camarão-pitu e outras espécies do Rio Una estão impossibilitados de trabalhar, gerando uma situação de vulnerabilidade extrema.

Causas da Degradação: Esgoto, Indústrias e Falta de Tratamento Adequado

A filha de Rejane, Eduarda de Oliveira Nascimento, reforça a gravidade da situação, afirmando que a comunidade tradicional não consegue mais manter seu modo de vida devido à contaminação do rio. “Apelamos aos órgãos competentes para que venham rever a situação. Aqui não é lugar de esgoto”, clama Eduarda, destacando que o rio poluído afeta diretamente a comunidade e tem causado doenças e fome.

A advogada ambientalista Caroline Mazieri, do coletivo SOS Rio Una, explica que o problema se arrasta desde 2012. Segundo ela, as estações de tratamento de esgoto, especialmente a de Cabo Frio, não realizam o tratamento suficiente. Além disso, há tentativas de transposição de efluentes de outras cidades próximas, como São Pedro da Aldeia e Iguaba Grande. A poluição também tem origem em indústrias e fazendas locais, que lançam produtos químicos como o vinhoto no rio, afetando também Búzios.

Colapso no Rio Una e Cobrança do MPF

A ambientalista Anna Roberta Mehdi descreve o cenário atual como um “colapso”, com águas escuras, odor forte e uma mancha que se estende pela Praia Rasa. Ela ressalta que o despejo clandestino de esgoto, a transposição de efluentes e resíduos industriais e agrícolas agravam a situação anualmente, com o rio nunca tendo permanecido tão tempo com as águas poluídas.

Diante deste quadro, o Ministério Público Federal (MPF) cobra respostas de Cabo Frio, Búzios e da concessionária Prolagos, exigindo a apresentação de medidas para identificar e cessar as fontes de poluição. A Prefeitura de Cabo Frio informou que está avaliando a situação e tomando as providências cabíveis. A Prolagos, por sua vez, afirmou que análises laboratoriais na foz do rio não apontam o esgoto como causa da coloração, mas sim matéria orgânica após chuvas. A Prefeitura de Búzios não respondeu até o fechamento da matéria.