CARNAVAL EM CANNES: O ESPETÁCULO DA IMPUNIDADE COM O DINHEIRO DO POVO DE MARICÁ…

Existe uma cena que resume, com precisão cirúrgica, o que se tornou a gestão do prefeito Washington Quaquá em Maricá. Não é uma cena de inauguração de hospital. Não é a entrega de uma escola reformada, nem de uma rua asfaltada. É uma cena filmada nas ruas de Cannes, na França, durante uma das feiras imobiliárias mais importantes do mundo, o MIPIM 2026.

Nas imagens que circulam nas redes sociais, o prefeito aparece de terno e credencial no peito, braço erguido para o alto, sambando nas ruas da França à noite. Ao fundo, componentes da Escola de Samba União de Maricá, vestidos de vermelho, completam o bloco. O bumbo marca o ritmo. A festa é plena. E quem pagou por tudo isso? Trata-se de uma utilização de recursos públicos ainda não detalhada oficialmente pela administração municipal.

Em outro registro igualmente revelador, a comitiva aparece dentro do palácio do evento, segurando o troféu do MIPIM Awards, com a bandeira da escola de samba hasteada no meio do auditório internacional, ao lado de executivos de terno de países do mundo inteiro. E, ao fundo, o grito que diz tudo: “É campeão! É campeão! É campeão!”, ao ritmo do bumbo, no coração da Europa, em um contexto que levanta questionamentos sobre a aplicação de recursos públicos.

Não é uma delegação de negócios. É uma ação institucional com forte componente cultural realizada no exterior, cuja finalidade pública e custos ainda carecem de esclarecimento detalhado.

O Troféu de Uma Ilusão

O prêmio comemorado com tanto alvoroço foi o MIPIM Awards 2026, na categoria “Melhor Novo Mega Desenvolvimento”, concedido ao MARAEY, anunciado como o maior complexo turístico da América Latina.

Uma premiação internacional de peso, concedida a um projeto que, até o momento desta publicação, não possui confirmação pública de execução física iniciada.

Não há confirmação oficial amplamente divulgada de obras em andamento. Há maquetes sofisticadas, renders arquitetônicos deslumbrantes e muitos discursos. O próprio prefeito havia prometido publicamente que as obras começariam em 6 de março de 2026. A data passou.

Não houve confirmação pública do início das obras.

Mas o troféu estava lá, erguido com as duas mãos, em Cannes, com escola de samba, feijoada, caipirinha e show de Neguinho da Beija-Flor. Tudo inserido em um contexto que levanta questionamentos sobre a prioridade na aplicação de recursos públicos, diante das demandas enfrentadas pela população de Maricá.

O Circo Completo

A viagem à França não foi discreta. Foi um espetáculo calculado para as redes sociais. A comitiva ultrapassou 50 pessoas. Além dos secretários municipais, Quaquá levou o cantor Moacyr Luz, o lendário Neguinho da Beija-Flor e dezenas de componentes da Escola de Samba União de Maricá, a mesma escola que desfila no carnaval da cidade e que participou da viagem internacional com estrutura custeada por recursos públicos.

O estande de Maricá no MIPIM virou um pedaço do Brasil transplantado para o sul da França: samba, feijoada, caipirinha e festa. Uma experiência turística que levanta questionamentos sobre sua finalidade principal dentro de um evento de negócios internacionais.

O ponto mais sensível, porém, veio de um detalhe político: o prefeito de Roma foi recebido em Cannes e participou de uma interação musical. Quaquá aproveitou o momento para agradecer ao prefeito italiano pela “solidariedade ao presidente Lula durante sua prisão”.

Em um evento de negócios imobiliários, a presença de manifestações políticas gerou questionamentos sobre eventual desvio de finalidade no uso de recursos públicos.

E, como se não bastasse, foi de dentro de Cannes, na França, que Quaquá anunciou o reajuste salarial dos professores de Maricá. Uma decisão que tradicionalmente ocorre no âmbito administrativo local foi comunicada durante a viagem internacional, o que também gerou debate sobre a forma adotada.

O Custo que Ninguém Revela

Quanto custou tudo isso? A prefeitura não disse. Não divulgou de forma detalhada. Não prestou contas completas até o momento.

Mais de 50 pessoas, passagens aéreas internacionais, hospedagem em Cannes, uma das cidades mais caras da Europa, estande montado, artistas e escola de samba transportada. Estamos falando de uma estrutura que envolve valores possivelmente elevados de recursos públicos, sem detalhamento oficial disponível.

A ausência de transparência não é um detalhe menor. É um ponto central quando se trata de recursos provenientes dos royalties do petróleo, riqueza que pertence ao povo de Maricá.

A Câmara que Abandonou o Povo

Em uma democracia que funciona, a Câmara Municipal seria o freio. Os vereadores, eleitos pelo povo de Maricá, seriam os fiscalizadores dos gastos públicos.

Mas o que se observa levanta questionamentos. Parte significativa dos vereadores não tem apresentado posicionamentos públicos contundentes sobre o caso até o momento.

Sem fiscalização efetiva amplamente visível, o Executivo atua com maior margem de decisão, o que reforça a importância do papel institucional da Câmara.

A Impunidade como Percepção

O episódio do MIPIM 2026 não é isolado dentro do debate público local. Ele se soma a outros questionamentos já levantados ao longo da gestão.

Levar uma escola de samba para a Europa com recursos públicos? O caso levanta questionamentos.

Receber um prêmio internacional por um empreendimento ainda sem execução física confirmada? Também gera debate.

Anunciar obras que não tiveram início confirmado publicamente? Outro ponto de atenção.

Não apresentar detalhamento completo dos custos da viagem? Questão central.

O conjunto desses elementos reforça uma percepção de ausência de responsabilização efetiva, tema que vem sendo debatido por diferentes setores da sociedade.

O Povo que Merece Respostas

No fim, quem acompanha tudo isso é o cidadão de Maricá.

Esse cidadão espera melhorias concretas: ruas estruturadas, saúde eficiente, transporte digno, educação valorizada.

Diante disso, cresce a cobrança por transparência, responsabilidade e prioridade no uso dos recursos públicos.

Cannes pode ter visto a festa. Maricá segue aguardando respostas.

Diante dos fatos apresentados, cabe aos órgãos de controle, como o Ministério Público e o Tribunal de Contas, avaliar a regularidade dos atos, dos gastos e da finalidade pública envolvida.