A Geração Z e o Fascínio pelo Terror
Para a Geração Z, nascida entre 1997 e 2012, a vida tem apresentado um cenário repleto de desafios que, por si só, já poderiam ser dignos de um filme de terror. Uma economia instável, a ameaça constante de tiroteios em escolas, e uma pandemia global são apenas alguns dos elementos que moldam a realidade desses jovens. Nesse contexto, não surpreende que o gênero de terror no cinema tenha ganhado uma nova força e ressonância com este público.
Filmes recentes como “Obsessão” e “Backrooms” têm atraído a Geração Z às salas de cinema, oferecendo sustos que parecem feitos sob medida para suas preocupações. Esses filmes exploram horrores que vão além do sangue e da violência gratuita, mergulhando em temas complexos que refletem as ansiedades de uma geração que se sente presa em uma realidade, por vezes, de pesadelo.
Terror como Espelho da Realidade
Segundo Lauren Cook, terapeuta e autora de “Generation Anxiety: A Millennial and Gen Z Guide for Staying Afloat in Uncertain Times”, o gênero do terror tem evoluído para dialogar com a Geração Z. “O gênero do terror meio que mudou com a Geração Z, que está explorando alguns conceitos mais sombrios da vida real às vezes, em vez de apenas o sangue e coisas do tipo”, afirma Cook.
“Obsessão”, por exemplo, embora contenha elementos sangrentos, aborda temas como a cultura “red pill”, que prega ideias de um mundo sistemicamente tendencioso contra os homens e anseia por valores tradicionais. Já “Backrooms”, dirigido pelo cineasta da Geração Z Kane Parsons, explora o isolamento, o trauma e a limitação de possibilidades – temas familiares para muitos jovens.
Cook destaca que a Geração Z aprecia a “honestidade que o terror pode trazer. Não tenta dourar a pílula”. Essa capacidade de lidar com a morbidez, sem a necessidade de maquiagem ou de um final feliz forçado, é vista como uma força para essa geração.
Um Legado de Incertezas
A Geração Z cresceu em meio a crises financeiras, como a de 2008, e agora enfrenta um mercado de trabalho incerto, com a perspectiva de automação por inteligência artificial. Ameaças climáticas, como furacões, a normalização de simulações de atiradores em escolas e uma pandemia global contribuíram para um sentimento de apreensão constante.
Kaitlyn Ruano, professora e crítica de cinema, observa que Hollywood está percebendo essa conexão. Cada geração, segundo ela, tende a ser definida por seu subgênero de terror. Se os anos 70 tiveram os slashers e os 80/90 o “pânico satânico”, os anos 2000 viram um terror mais voltado para a ação, refletindo o ambiente militarista pós-11 de setembro.
“Acho que, porque a Geração Z tende a ser muito focada em questões sociais, esse é um tipo de fator definidor da nossa geração com o qual o terror joga muito bem”, explica Ruano.
Números Confirmam a Tendência
Os dados corroboram essa observação. Um relatório da Statista indicou que a Geração Z é a faixa etária mais propensa a assistir a filmes de terror, com 91% deles consumindo o gênero. O terror é o terceiro gênero favorito dessa geração, atrás apenas da comédia e da ação.
O sucesso financeiro de filmes como “Backrooms” e “Obsessão” demonstra o poder econômico desse público. “Backrooms” arrecadou cerca de US$ 80 milhões em seu fim de semana de estreia na América do Norte, enquanto “Obsessão” já ultrapassou os US$ 150 milhões globalmente, com um orçamento de produção modesto.
O sucesso desses filmes está alinhado com a preferência da Geração Z por conteúdos que geram discussão e viralizam nas redes sociais. Ruano sugere que, imersos em uma era digital e midiática, os jovens da Geração Z tendem a ser mais analíticos e a “pensar demais” sobre o conteúdo que consomem, algo que o terror, com suas camadas e ambiguidades, proporciona.
Um Novo Conceito de Escapismo
Para a Geração Z, a necessidade de força em um mundo politicamente divisivo e sombrio redefiniu o conceito de escapismo. Filmes nostálgicos e reconfortantes, que antes traziam alegria, agora podem parecer “um pouco insultuosos”.
“Assistindo a programas dos anos noventa e dos anos 2000, em que as pessoas se formavam e conseguiam um emprego incrível ou um estágio incrível e todas essas coisas, você assiste, é quase frustrante porque você fica tipo, nossa, a vida era realmente tão fácil naquela época?”, reflete Ruano. “E olhe onde estamos agora.” Nesse cenário, o terror oferece uma forma de confrontar e processar as complexidades do presente, encontrando satisfação na exploração de seus medos mais profundos.