Por Ricardo Cantarelle/TVC
Na política, as maiores disputas quase nunca começam nas urnas. Elas começam quando um único movimento obriga
.O “Encontro de Lideranças” de São Gonçalo terminou, mas seus efeitos ainda não. Marcos Abrahão (União Brasil) entra na guerra e leva a disputa ao coração do reduto eleitoral do vice-presidente da Câmara.
Na política, alguns acontecimentos terminam quando as luzes do palco se apagam. Outros apenas começam.
O encontro promovido em São Gonçalo pelo prefeito de Maricá, Washington Quaquá, e pelo prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, em apoio à pré-candidatura de Eduardo Paes (PSD) ao Governo do Estado, claramente pertence ao segundo grupo.
Dias depois do evento, as reações foram chegando em sequência e a última delas veio de onde menos se esperava.
Centenas de pessoas lotaram o Clube Mauá para o “Encontro de Lideranças”, com Quaquá e Neves no palanque ao lado de Paes. Segundo informações que chegaram à TVC, mais de dez mil pessoas estiveram presentes, boa parte transportada em dezenas de ônibus vindos de diferentes municípios.
O volume de veículos chamou a atenção de quem passava pelas estradas da região. O recado era de mobilização.
A resposta dos adversários não demorou.
O vice-presidente da Câmara e presidente do PL-RJ, Altineu Côrtes, responsabilizou Eduardo Paes pela expansão do Comando Vermelho no interior do estado, afirmando que as políticas de segurança adotadas durante sua gestão na capital teriam deslocado integrantes da facção para cidades do interior fluminense.
Independentemente do mérito da acusação, o movimento revelou que o encontro de São Gonçalo não passou despercebido por quem mais tem a perder com o avanço do campo de Paes no interior.
A Baixada Fluminense e o Noroeste Fluminense seguem como redutos historicamente conservadores, onde Côrtes exerce influência política consolidada. Ver Quaquá mobilizando militância em escala industrial nesse território não é algo que o PL absorve em silêncio.
Mas a réplica de Altineu carrega um problema de credibilidade difícil de contornar. A narrativa de que Paes atraiu o crime organizado para o interior esbarra no próprio campo que o deputado representa.
No próprio evento de São Gonçalo, Paes lembrou que o nome que seria lançado pelo PL ao governo estadual, Rodrigo Bacellar, foi preso por ligações com o Comando Vermelho. E o contexto não favorece: a Operação Contenção Red Legacy prendeu o vereador Salvino Oliveira (PSD), ex-secretário de Paes, investigado por suposta negociação com o traficante Edgar Alves, o Doca, fato que Paes classificou como operação política, protocolando representações criminais no STJ e na PGR contra o então governador Cláudio Castro.
O debate sobre segurança pública e crime organizado está longe de permitir narrativas simplistas. As acusações e investigações envolvendo diferentes atores políticos mostram que esse tema continua sendo uma das principais armas da disputa pelo Palácio Guanabara.
A série de reações, porém, não parou no PL.
Na mesma semana, o deputado federal Tarcísio Motta (PSOL) elevou o tom ao chamar Paes de traidor e anunciar que não apoiará o projeto político liderado pelo pré-candidato carioca. Além disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas públicas aos atrasos de obras federais no Rio de Janeiro e cobrou maior fiscalização da população sobre sua execução, declarações que tiveram ampla repercussão por envolverem diretamente a gestão Paes.
Os episódios não guardam,necessariamente, relação de causa e efeito. Mas, observados em conjunto, revelam que a candidatura de Paes passou a provocar ruído em diferentes espectros do tabuleiro político fluminense, da esquerda à direita, dos aliados aos adversários.
É nesse cenário de pressão cruzada que Marcos Abrahão entra em cena. Fiel às suas origens, de personalidade marcante e reconhecido pela lealdade inabalável aos companheiros, o prefeito de Rio Bonito (União Brasil) foi ao Instagram para contestar diretamente as declarações de Altineu Côrtes, assumindo posição pública em defesa de Paes num debate que, até então, estava concentrado entre lideranças estaduais.
Sem aguardar sinalização de bastidor nem esperar o conflito esfriar, Abrahão subiu ao palanque digital com nome e recado.
O movimento tem peso que vai além de Rio Bonito. Significa que a engrenagem articulada por Quaquá já está girando dentro do coração do território que Altineu sempre tratou como quintal seguro.
E quando um prefeito do interior se sente confortável o suficiente para confrontar publicamente o vice-presidente da Câmara dos Deputados, o mapa eleitoral do Rio de Janeiro mudou mais do que os números das pesquisas ainda mostram.
todo o tabuleiro a reagir.
A reportagem tentou contato com as partes citadas, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.