PF aprofunda apurações sobre vídeos de festas de Daniel Vorcaro, investigando se as imagens foram usadas para chantagem e proteção do Banco Master.
A Polícia Federal (PF) está intensificando as investigações sobre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, com foco em uma grave suspeita: a de que vídeos de festas de alto padrão, envolvendo autoridades e membros do Judiciário, possam ter sido utilizados para chantagem. O objetivo seria pressionar figuras públicas a sustentar politicamente o Banco Master, que acabou liquidado em 2025.
Os conteúdos íntimos, repletos de bebidas caras, charutos exclusivos e “acompanhantes” estrangeiras, não são o centro da apuração pelo seu teor sexual. O que realmente interessa aos investigadores é a possibilidade de esses encontros terem servido como moeda de troca para garantir proteção institucional a Vorcaro e seus negócios.
Esta linha de investigação, que faz parte da Operação Compliance Zero, pode mudar o patamar de gravidade do caso Master. As informações foram divulgadas por pessoas próximas às investigações e por relatos públicos, conforme apurado pelo g1.
A Profundidade da Investigação: Chantagem ou Eventos Íntimos?
A principal pergunta dos investigadores é se as gravações, realizadas durante encontros com acesso restrito e proibição de celulares para algumas participantes, foram usadas por Daniel Vorcaro para monitorar e, eventualmente, chantagear figuras públicas. A Polícia Federal busca saber se esses registros serviram para obrigar autoridades do Executivo, Legislativo ou Judiciário a dar sustentação política ou institucional ao Banco Master ou a pessoas ligadas ao ex-banqueiro.
Se essa conexão for confirmada, o material apreendido pode se tornar uma prova robusta de um suposto esquema de chantagem institucional, o que mudaria significativamente o nível de gravidade do caso. O acesso a esses vídeos e outros materiais é rigorosamente controlado, justamente para evitar vazamentos seletivos que poderiam ser usados pelas defesas para justificar a anulação das investigações, caso se provem apenas eventos de foro íntimo. A defesa de Vorcaro, por sua vez, tem contestado essa interpretação, afirmando que os encontros tinham caráter estritamente privado entre adultos, sem influenciar decisões ou favorecer interesses empresariais.
Há também uma segunda frente de apuração, que se debruça sobre a logística das festas. O suposto recrutamento de mulheres estrangeiras, muitas do Leste Europeu, que atuavam como acompanhantes de autoridades, é analisado sob suspeitas de exploração sexual e até tráfico de pessoas. Os investigadores buscam entender, por exemplo, como essas mulheres entravam nos países onde os eventos eram realizados, como era o trânsito aduaneiro e em que aeronaves eram deslocadas. Suspeita-se que o translado era feito em aviões do próprio empresário.
Outro ponto crucial é o financiamento desses encontros. A investigação apura com que dinheiro as festas foram bancadas, buscando indícios de recursos provenientes de desvios de fundos de investimentos e previdenciários de estados ou municípios. Além disso, a PF verifica se há alguma relação com as fraudes dos descontos indevidos de aposentados e pensionistas do INSS, recursos que teriam sido injetados no Banco Master.
O Enigma das “Astronautas”: O Relato de Garotinho e as Suspeitas
O tema das festas íntimas e da possível chantagem ganhou destaque após o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, detalhar publicamente o que teria visto em um vídeo de uma festa promovida por Vorcaro, apelidada de “festa das astronautas”. Garotinho descreveu um evento em que homens, incluindo políticos e empresários brasileiros, e mulheres estrangeiras, supostamente contratadas como acompanhantes, estariam nus.
As mulheres usavam apenas capacetes similares aos de astronautas, enquanto os homens as escolhiam levantando suas viseiras. Fontes a par das investigações reforçam que mais de uma dessas festas pode ter sido realizada. Garotinho afirmou ter a gravação, mas optou por não divulgá-la, ciente de que o material está sob segredo de Justiça e integra os autos da investigação sobre o Banco Master.
O ex-governador do Rio de Janeiro relatou um ambiente onde mulheres desfilavam e homens públicos sinalizavam interesse. Embora não tenha revelado nomes, ele mencionou a presença de autoridades, políticos de diferentes espectros e empresários. A apuração desses vídeos de festas corre em paralelo a outras frentes da Operação Compliance Zero, que já resultou em prisões, buscas contra políticos e questionamentos sobre o uso de fundos de previdência pública.
Festas Luxuosas: Do “Cine Trancoso” a Eventos Globais
As agendas sociais de Daniel Vorcaro eram vastas e teriam se replicado dezenas de vezes, conforme as investigações da Operação Compliance Zero. Elas ocorreram em endereços badalados no Brasil e no exterior, sempre reunindo empresários, autoridades e convidados exclusivos em ambientes de alto padrão e com muito controle, mantendo um perfil reservado, mas de vigilância constante.
No Brasil, além do Rio de Janeiro e de São Paulo, um dos principais pontos de encontro teria sido uma mansão em Trancoso, no litoral sul da Bahia. O imóvel ficou conhecido como “Cine Trancoso” após relatos de que recebia festas privadas durante feriados e temporadas de verão. De acordo com representações encaminhadas ao Tribunal de Contas da União (TCU), os eventos reuniam convidados selecionados em um ambiente reservado, com apresentações musicais, serviço de alto padrão e rígido controle de acesso.
A participação de autoridades levou o Ministério Público junto ao TCU a pedir o aprofundamento das apurações sobre eventual conflito de interesses. Posteriormente, técnicos do tribunal entenderam que não havia elementos que demonstrassem uso de recursos públicos federais nas festas, mas a Polícia Federal ainda analisa o caso, buscando outras conexões.
Internacionalmente, Vorcaro promoveu eventos em Nova York, especialmente em paralelo à programação da Semana do Brasil, a Brasil Week de 2024. Foram jantares exclusivos, degustações de charutos e uísques, além de recepções em suítes de hotéis de luxo na Quinta Avenida. Os eventos incluíam hospedagens de alto custo, gastronomia sofisticada e programação reservada para convidados, com despesas que sempre alcançariam cifras milionárias.
Em Portugal, houve registro de encontros promovidos durante o tradicional fórum jurídico realizado em Lisboa, conhecido informalmente como “Gilmarpalooza”. Neste caso, os registros teriam sido exclusivamente de encontros entre homens para degustação de bebidas e charutos, com a presença de empresários, advogados, magistrados e políticos em reuniões focadas em relacionamento institucional e networking. Em Londres, durante fóruns jurídicos internacionais, Vorcaro também teria promovido recepções privadas destinadas a autoridades e convidados selecionados. Apesar de nem todas as reuniões estarem focadas em eventos íntimos ou sexuais, elas costumeiramente incluíam degustações de uísques de alta qualidade, como Macallan, em espaços exclusivos, mantendo sempre o mesmo perfil reservado, mas de vigilância. O circuito de eventos teria se repetido durante cerca de cinco anos.
Vazamentos e Colaborações Premiadas Frustradas
O acesso e o compartilhamento de arquivos de teor íntimo com autoridades, incluindo membros da CPMI do INSS, geraram polêmica e levaram o ministro do STF André Mendonça a suspender o acesso aos dados sigilosos. Ele também abriu uma apuração sobre possíveis vazamentos, o que ameaça a integridade da operação.
Após esses eventos, a defesa de Vorcaro chegou a apresentar duas propostas de colaboração premiada à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR), mas nenhuma foi aceita. Para os investigadores, tudo o que Vorcaro se dispôs a falar já havia sido mapeado nas provas colhidas, incluindo o que foi recuperado de aparelhos eletrônicos, material que permanece sob sigilo judicial.
Dentro da estrutura investigativa da PF, foi determinada a limitação do compartilhamento de informações para evitar novos vazamentos. Um dossiê, supostamente feito por um perito que acabou afastado de suas funções, exemplifica os riscos envolvidos no manuseio desses dados tão sensíveis. A proteção contra vazamentos é crucial para garantir a validade das investigações sobre a possível chantagem e os demais crimes.