Disputa pelo 1313 escancara o tamanho do poder de Quaquá dentro do PT-RJ e o prefeito já fala em levar Maricá para o “Brasil de Lula”

Por Ricardo Cantarelle

Há uma cena que resume bem o momento do PT fluminense às vésperas de 2026: de um lado, Lindbergh Farias e Marcelo Freixo empunhando um manifesto contra o que chamam de “capitania hereditária”; do outro, Washington Quaquá respondendo com um vídeo nas redes sociais e a frase que virou bordão “o choro é livre”. A disputa pelo número 1313 é o estopim visível de um racha que já vinha se desenhando dentro do diretório estadual. Mas o episódio expõe, mais do que qualquer outro nos últimos meses, a distância que separa hoje o peso político de Quaquá do de seus dois principais adversários internos.

O racha do 1313

A crise começou em 1º de agosto, quando Lindbergh Farias e Marcelo Freixo, pré-candidatos a deputado federal, protocolaram queixa oficial na Executiva Nacional do PT contra a decisão do diretório estadual de destinar o número de urna 1313 o mais disputado da legenda no Rio, por ser de fácil memorização e alto potencial de puxar votos à candidatura de Diego Quaquá, presidente estadual do partido e filho do prefeito de Maricá.

Diego disputa eleição pela primeira vez em 2026, o que o afasta do perfil que costuma receber prioridade para números tão concorridos, segundo o próprio critério interno do PT, que dá preferência a quem já usou o número no pleito anterior no caso, o próprio Washington Quaquá, eleito deputado federal em 2022 com o 1313.

Em vídeo, Freixo classificou a condução como uma “capitania hereditária”, enquanto Lindbergh foi além, ligando o episódio à própria campanha de Lula no estado: “não é questão de número, é questão de democracia interna, é questão da boa condução da campanha do Lula no Estado do Rio”. Juntos, os dois afirmaram: “é inaceitável que interesses familiares orientem as decisões estratégicas do PT. Nosso partido não pode se apequenar.”

Quaquá respondeu em vídeo publicado horas depois, resgatando o histórico político dos dois adversários lembrou que Freixo apoiou publicamente o ex-juiz Marcelo Bretas, a Operação Lava Jato e Sergio Moro nos anos de perseguição a Lula, e que Lindbergh cogitou deixar o PT para seguir Heloísa Helena na fundação do PSOL, enquanto ele, Quaquá, organizava caravanas a Curitiba para denunciar o que chamou de prisão “ilegal, irregular e injusta” do ex-presidente. Defendeu ainda a manutenção do número com o filho argumentando que ele pertenceria, por direito histórico, a Maricá “a principal base petista do Estado do Rio de Janeiro”.

Um padrão que se repete sem sanção partidária…

O episódio do 1313 não é isolado é apenas o capítulo mais recente de uma sequência de decisões e atritos internos em que Quaquá segue, até aqui, sem qualquer sanção formal do partido, mesmo contrariando orientações e normas do próprio regimento da legenda. Em 2023, foi publicamente repreendido pela então presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, por uma foto ao lado do general Eduardo Pazuello. Meses depois, a ministra Anielle Franco e a própria Gleisi cobraram satisfações dele por uma foto ao lado de familiares dos irmãos Brazão, acusados de mandar matar a vereadora Marielle Franco, irmã de Anielle.

Em outubro de 2025, foi o próprio Quaquá quem partiu para cima de Gleisi, acusando-a de usar “a máquina do governo federal para fazer política particular” em benefício de Lindbergh Farias seu companheiro e de André Ceciliano. Agora, em agosto de 2026, o prefeito repassa o número mais valioso do partido ao próprio filho contrariando o critério de prioridade do regimento interno, alvo de queixa formal de dois dos nomes mais influentes da legenda no estado e, mesmo assim, segue como vice-presidente nacional do PT e apontado para coordenar a campanha de Lula no Rio em 2026.

A leitura que esse padrão sugere, e que a TVC apura junto a fontes do partido, é a de que Quaquá acumulou uma espécie de carta branca dentro da legenda: decisão após decisão, choque após choque, o prefeito de Maricá segue sem punição enquanto adversários que o desafiam publicamente como agora Lindbergh e Freixo esbarram numa Executiva Estadual que, na prática, tem referendado suas escolhas.

O respaldo, segundo relatos internos, vem de cima: do próprio Lula, a quem Quaquá se apresenta publicamente como aliado inabalável desde os tempos de prisão do ex-presidente.

Os sinais, para quem acompanha de perto o tabuleiro fluminense, apontam numa direção só: Quaquá caminha para se tornar a figura de maior peso do PT no Rio na contramão de boa parte dos caciques tradicionais da legenda.

Discurso contra entrega

Se há algo que distingue Quaquá dos dois dirigentes que hoje o desafiam, é o terreno em que cada um escolhe travar a briga. Lindbergh e Freixo apostaram na queixa formal e no protesto público o caminho do enfrentamento institucional. Quaquá, por sua vez, tem usado vídeos e pronunciamentos recentes para responder com um discurso de gestão: cita os Campi de Educação Pública Transformadora (CEPTs), projeto de escolas em tempo integral que a prefeitura de Maricá expande desde 2022, com unidades já entregues como a CEPT Leonel Brizola, em Itaipuaçu, com capacidade para 5 mil alunos e outras em construção nos bairros Mumbuca, Inoã e Espraiado. Em suas falas, o prefeito chega a descrever o programa como uma antecipação do que o próprio governo federal desejaria replicar nacionalmente, e já mencionou ensino bilíngue e fluência em mandarim como metas dos CEPTs declarações que, até o momento, a TVC registra como fala do próprio Quaquá, sem confirmação em documento oficial da Secretaria de Educação municipal ou em qualquer ato do governo federal que vincule o programa a uma política de Estado.

Ainda assim, é esse contraste obra entregue de um lado, queixa protocolada do outro que hoje sustenta boa parte do discurso de Quaquá dentro do partido: quem apresenta um projeto que muda a realidade de uma cidade tende a ocupar mais espaço na memória política do que quem aparece como coadjuvante de bastidor.

Uma ressalva necessária.

Vale registrar, à parte da disputa pelo 1313 em si: os três dirigentes Quaquá, Lindbergh e Freixo carregam, cada um a seu modo, processos e cobranças em curso na esfera judicial e nos órgãos de controle, por fatos distintos e sem relação direta com o episódio do número de urna.

A TVC acompanha o desdobramento de cada um desses processos separadamente, sem tomar partido na disputa interna do PT.